sábado, 24 de maio de 2008

Sorria; você está em Portugal!

"Sexta dimensão
Por João Bonzinho

A Caixa Geral de Depósitos, instituição financeira cujo capital é maioritariamente do Estado, ou seja, de todos nós, foi notícia esta semana pelo anúncio dos resultados da sua actividade no primeiro trimestre do ano. Os responsáveis da entidade deram a conhecer aos portugueses que a Caixa deu um lucro de 228 milhões de euros (mais milhão, menos milhão) entre Janeiro e Março, resultado esse (pasme-se) condicionado, segundo os mesmos responsáveis, pela conjuntura de forte instabilidade nos mercados financeiros internacionais. Quer dizer: a Caixa lucra que se farta (a este ritmo, qualquer coisa perto de mil milhões de euros quando chegarmos ao final do ano) e os seus dirigentes ainda lamentam a conjuntura internacional. Tenham paciência: a Caixa Geral de Depósitos é uma instituição financeira do Estado, não é? Então apresentem-se os resultados com a discrição que os números justificam e não com o descaramento de os considerar ainda assim afectados pelas dificuldades dos mercados internos e externos. Num país que ainda está totalmente coberto pelo lençol da recessão, pela angústia dos aumentos permanentes de bens essenciais ao consumo diário das pessoas, pelo crescimento económico abaixo do previsto, até por este regabofe do aumento dos combustíveis (a propósito, abasteça todos os dias antes da meia-noite, porque nunca se sabe como a coisa vai amanhecer...), já para não falar do desemprego, das taxas de juro, das dores de cabeça com o crédito à habitação, anunciar que 228 milhões de euros de lucro reflectem os efeitos da crise (como o próprio presidente da Caixa, Faria de Oliveira, já previra em Fevereiro...) é mais ou menos como a Galp, que acaba de dar nas suas explorações pelo Brasil mais um pontapé num poço de petróleo, lamentar-se da crise e implorar aos consumidores compreensão (deus do céu!, o que a gente não compreende...) pela tal loucura, repito, dos constantes aumentos dos combustíveis (mesmo sabendo-se que o Estado, na realidade, taxa disparatado duplo imposto sobre a gasolina, o gasóleo e afins). Moral da história: pobres estão, como se vê, estas instituições de que tanto dependemos. Mas não se preocupem: os portugueses são solidários e dão uma mãozinha; sempre foram sensíveis aos mais desfavorecidos!"

Li este artigo de opinião no jornal semanal gratuito "SEXTA". Palavras para quê?

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